quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

A justiça e o problema do mal

 


Um dos problemas teológico e filosóficos mais prementes para o homem, desde o adentrar ao espetáculo que é a vida, é o questionamento sobre o problema do mal. E diante disto, surgem perguntas do tipo: como e por que o mal existe? E, ainda, se existe um Deus bondoso, amoroso, onisciente e onipotente, como e por que ele permite a existência do mal? É o que comumente em teologia chamam de teodiceia, ou o estudo do problema e a origem do mal.

Santo Agostinho, em suas Confissões diz que: “procurei o que é a maldade e não encontrei substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema”, e, ainda o mesmo pensador cristão que é uma referência para toda a cristandade prossegue em sua obra O Livre-Arbítrio dizendo de forma clara e sucinta que “que ninguém está forçado a pecar, nem por sua própria natureza, nem pela natureza dos outros; logo, só vem a pecar por sua própria vontade”. São questionamentos que acompanharam toda a trajetória humana, e que de certa forma nos trouxe até aqui.

Quando falamos sobre a maldade, dizemos enquanto elemento intrínseco à própria vontade humana, que se desvirtuou ao se afastar dos princípios inerentes ao seu Criador, que a fez conforme sua imagem e semelhança. E, isso nos leva a outra questão relativa à maldade: o hedonismo, que impulsiona o homem e sua busca desenfreada pelo prazer como bem  ou condição suprema da vida humana.

Sem adentrar em uma discussão filosófica mais abrangente, até mesmo porque reconheço os limites impostos por milhares de anos de história – e, assim não o poderia fazê-lo, pois a nossa intenção é mostrar como vivemos tempos de uma total relativização de valores e abdicação de princípios, em detrimento de prazeres que produzem resultados tão duradouros quanto uma quimera, tudo porque a busca por essa realização suplanta o que é perene e promove àquilo que Mário Ferreira dos Santos chamava de “a invasão vertical dos bárbaros”; onde essa invasão e inversão é promovida não por bárbaros ou vândalos, mas por pessoas que teriam o poder e o dever de primar pelos valores que fundamentaram a cultura até aqui, e que em grande parte é defenestrado por “bárbaros” instituídos que ocupam posições proeminentes, mas que a todo momento buscam impor e dar sentido ao que não é civilizado, ao que é inculto, combatendo toda e qualquer manifestação da cultura que não coadune com sua visão obscura de mundo.

A exemplo desta invasão, o país assiste incrédulo as peripécias de um ministro gestado por um iluminismo infantilizado – mas, que no fundo é um bárbaro afetado que com sua verve retórica, banaliza e relativiza a maldade e os horrores que tomaram de assalto a civilização no século passado quando o comunismo, com suas políticas coletivistas, promoveu um genocídio na Ucrânia por meio do Holodomor, matando milhões de pessoas de inanição; isso sem falar no nacional socialismo que propiciou a ascensão do nazismo e, consequentemente, o extermínio de judeus e políticas eugenistas – tudo em nome da… CIÊNCIA! Não se assuste com as decisões de zelo sanitário levadas à cabo pelo STF, é tudo com base na ciência, mesmo quando esta não chegou a um denominador comum sobre nada no que concerne a essa pandemia histriônica. E tudo isso é relativizado quando o Ministro estufa o peito feito um pombo jogando xadrez, para dizer que o Supremo Tribunal Federal, por meio de ações que limitaram a Presidência da República, impediu um genocídio no país. Se isso não é relativizar os horrores do comunismo e do nazismo, deem o nome pomposo que quiserem — mas ainda assim, será digno de toda execração.

Esse mesmo ministro que se reúne em lives com pessoas iguais a ele, como é o caso do blogueiro Atila que, com um vídeo assistido por mais de 5 milhões de pessoas, o cacifou a ir em programas como Roda Viva; além de se tornar o especialista do momento, em que pese os esforços de médicos infectologistas e virologistas que, praticando ciência de verdade, observavam as reações e as complicações oriundas do vírus propagado, e eram solenemente ignorados. Mas o senhor youtuber, sem nenhum estudo ou base científica, semeou o terror, pois sua verborragia servia de referência para as matérias noticiosas nos principais veículos de comunicação profissional do país. Nada do que o Nostradamus do Youtube previu ou deduziu se concretizou (graças a Deus!); mais aí já era tarde, o terror do fique em casa já havia alcançado o seu objetivo por meio da maior fraude da história do jornalismo doméstico, que atualizava com voz fúnebre dia sim e outro também, os números da mortandade tirados não sei de onde, enquanto o fique em casa destroçava o país. Enquanto isso, os seres iluminados e confortáveis tomavam vinho solitário em suas banheiras, pedindo sua comida por meio de aplicativos; entregues por aqueles que não tinham a mesma condição e opção de ficar em casa – eram o retrato acabado da hipocrisia do bem.

Como o Brasil não é para amadores, o youtuber foi agraciado pelo Ministro Iluminado, e foi alçado de vidente a cientista político; pois foi chamado para debater sobre as eleições municipais de 2020, na mais alta corte eleitoral do país, ou seja no excrescente TSE. O sistema é foda, companheiro. Mas, tem sua utilidade – e como!

Não bastasse esse teatro todo, o ministro não se sentido satisfeito em sua sanha de editor progressista da sociedade, convidou outro youtuber para discutir política e o papel a ser desempenhado pelos jovens. Detalhe, esse youtuber é hoje a persona non grata par excellence do país. É só fazer um exercício e uma força excruciante para tentar assistir seus vídeos para perceber que não passam de convulsões filmadas, com direito a olhos revirados e contrações com seus dedos coçando freneticamente o queixo (haja exercício imaginativo para explicar tal cena); isso quando não sobram piadinhas e afirmações sobre o tamanho de genitálias alheias, e pedidos capazes de fazer ruborizar proctologistas que passam o dia examinando seu objeto de estudo. Isso é tudo a ser dito sobre o iluminismo que infectou o ministro que vive em densas trevas.

Voltando a fatídica afirmação do ministro que diz ser o STF o responsável direto pelo impedimento do genocídio brasileiro, percebe-se que o Senhor das Togas ignora por covardia ou por puro mau caratismo, que esse mesmo STF retirou do Presidente as ações que poderiam ter minimizado os efeitos da pandemia, pois transferiu para os Estados e Municípios tal competência. O resultado está aí para o país inteiro ver e comprovar.

De todos os poderes da República, talvez o STF seja o que mais contribuiu para os efeitos nefastos da pandemia, pois os mesmos se prolongarão no tempo e espaço, senão vejamos:

Por meio de decisões garantistas, o STF soltou mais de 32 mil presos com a desculpa abjeta de que estavam seguindo orientações para evitar uma contaminação em massa da população carcerária (orientações de quem?), o que por si só é uma contradição que soa a demência e a alienação, pois como fica o famigerado fique em casa? Não seria igualmente verdadeiro o fique em sua cela? Segundo o próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ), “esse número exclui os dados dos Estados do Acre, Amapá, Ceará, Espírito Santo e Rio de Janeiro, pois não foi possível quantificar quantas pessoas foram liberadas”. Isso sem falar na decisão acintosa do Ministro Edson Fachin, que atendendo uma ação proposta pelo PSB — Partido Socialista Brasileiro, do abjeto Alessandro Molon, para que impedisse a realização de operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro, assim disposta monocraticamente: “que não se realizem operações policiais em comunidades durante a epidemia do COVID-19, a não ser em hipóteses absolutamente excepcionais, que devem ser devidamente justificadas por escrito pela autoridade competente, com a comunicação imediata ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro — responsável pelo controle externo da atividade policial”. Os efeitos práticos de tal decisão, é que os traficantes além de impor o terror por meio da violência transmitida on-line através de vídeos publicados em redes sociais, impõem uma religião aos moradores das favelas, tendo a audácia de criar o complexo de Israel – quando na verdade o mais adequado seria o complexo da Faixa de Gaza, tudo isso graças ao absurdo da decisão do Ministro Fachin.

Os ministros da república das lagostas, tão ávidos por criticarem e até imputarem crimes ao Presidente da República, com os aplausos da militância do jornalismo profissional – adepta ao jornalismo de fofoca, reduzem a escombros princípios caros até mesmo para uma república democrática das bananas. E ignoram precipuamente, que suas decisões têm afetado o país e de certa forma até contribuído para o verdadeiro genocídio perpetrado pelo crime, tráfico de drogas e violência endêmica que já ceifou quase 700 mil vidas ao longo de 10 anos, se considerarmos que são quase 70 mil mortes por ano vitimadas pela violência e criminalidade. E o que o STF faz? Julga e legisla de forma a garantir liberdade a bandidos, traficantes, estupradores, e principalmente aos políticos corruptos, que graças a esse garantismo bárbaro que predomina na Corte, insistem em permanecer e proliferar na vida pública do país. É isso que o STF faz, quando muda ao sabor do vento e anseios intestinais de alguns ministros, o entendimento sobre prisão em segunda instância, e ainda se fazem de desentendidos como se não fossem em grande parte os responsáveis pela ode à barbárie. Haja iluminismo para poucos jacobinos!

Estamos na pior das eras. Um obscurantismo travestido de progressismo iluminado toma de assalto o país, e escancara o totalitarismo advindo da Suprema Corte, e mais uma vez nos deparamos com a constatação de Rui Barbosa que diz: “a maior ditadura é a do judiciário, contra ela não há a quem recorrer”.

Quando a relativização da maldade vem de onde menos se espera, é porque a mitigação do que é vil e do que é mal já logrou seus intentos. E mais uma vez valho-me de Mario Ferreira dos Santos, para exclamar que os bárbaros estão em predominância, pois “já se acham dentro do âmbito cercado pelos muros, em plena civilização, assumindo aspectos, vestindo-se com trajes civilizados, mas atrás dessa aparência, atuam desenfreadamente para dissolver a nossa cultura“.

Cabe nos portarmos como atalaias. Salomão em sua sabedoria ao escrever seus provérbios divinamente inspirados clama: “erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”. E, é justamente esse baluarte que vem sendo aviltado pela Suprema Corte, pois quando juízes já não sabem mais o que é o próprio senso da justiça, é porque a degeneração já os consumiu, e vivem da degradação e decadência dos valores e desprovidos de ética e de uma moralidade capaz de frear esses arroubos hedonistas, que promovem a todo custo aquilo que exalta a nossa bestialidade.

Soli Deo Gloria.

 

 

Natalino Oliveira, para Vida Destra, 23/12/2020.                                                      Sigam-me no Twitter! Vamos debater o artigo! @NinoSimples

 

Crédito da Imagem: Luiz Augusto @LuizJacoby

 

 

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