segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O LIMITE

 



Como professor e como advogado, ou talvez, como pensador, se me permitem a ousadia, sempre prezei e me preocupei com os cânones, os preceitos da lógica, da cultura e da ciência. Contudo, no cotidiano, sempre fui bastante prático e conciso, até veloz e elétrico, disso podem testemunhar muitos ex-alunos nas redes sociais, se me derem a honra.

Venho de uma família de professores. Avó, mãe, tia, irmã, todas mulheres fortes e imperativas. Delas, só está viva minha tia, a quem tenho um respeito que beira o temor, sei bem o quanto podem ser persistentes. Casei com uma mulher do mesmo calibre, forte e imperativa. Freud explica. Também meu padrasto, a quem votei muito amor, foi professor, além de advogado.

Livros em casa havia em profusão, por todo lado. Até hoje o cheiro de livros (dos velhos principalmente) me causa calor no coração. A leitura, o debate, a discussão em bases sólidas, com citações e fontes, eram constantes, incentivadas pelo exemplo, pelo convívio. Talvez isso não seja muito comum no “ethos” brasileiro, o que lamento.

Ao longo da minha formação, em Direito e Economia, aprendi que um raciocínio dedutivo tem 3 elementos: premissa maior, premissa menor e conclusão. Isso é lógica aristotélica clássica, estruturada da seguinte forma:

  1. premissa maior é uma assertiva (afirmação) ampla, universal. Por exemplo, “todo homem é mortal“.
  2. premissa menor é uma assertiva dirigida, de menor alcance. Tipo: “Pedro é homem“.
  3. conclusão é a aplicação da maior sobre a menor, um “salto de compreensão”: “Logo, Pedro é mortal“.

À estrutura descrita chamamos silogismo. Este, para ser verdade, precisa que suas premissas sejam, ambas, verdadeiras. Se qualquer uma das premissas for falsa, a conclusão será falsa.

Mais ainda, para ser científico, o raciocínio precisa de 3 requisitos:

  1. Coerência: os elementos estão estruturados, não há contradição entre eles, permitem a conclusão lógica.
  2. Consistência: O raciocínio, todo, resiste a argumentações contrárias, é sólido, firme, encadeado, é uma TESE que resiste à ANTÍTESE.
  3. Objetividade: o raciocínio representa o Universo Real, isto é, tem provas, representa a verdade como é, não como gostaríamos que fosse.

Diferente disso, o “pensamento” ideológico, o sofisma (“silogismo” aparentemente verdadeiro, ou verossímil, mas falso), a ideologia, é composto por 3 elementos que não se prendem à verdade:

  1. Justificação: ao contrário de “argumentar”, significa buscar a adesão, a convicção alheia. Inclui a deturpação de fatos em busca da posição a ser defendida, e chega ao nível da mentira.
  2. Partidarismo: significa ignorar todos os argumentos contrários, como se não existissem, é a tentativa de “ganhar no grito”, ou a repetição da mentira até que se pareça com a verdade.
  3. Normatização: é o estabelecimento de “regras de entendimento” e de “leitura” dos fatos, como o revisionismo histórico: analisar a realidade sob um “filtro” tendencioso e estratégico.

Tenho a maldição do raciocínio científico, como acima expus. Ao me deparar com pensamentos, afirmações ou máximas alheias, os divido, duvido, estraçalho qualquer argumento em seus componentes básicos e os critico, um a um. Sob a luz das matemática, da realidade, da praticidade, do realizável, além da coerência, consistência e objetividade. Nesse sentido, sou mesmo um chato, azedo. Houve quem me acusasse disso, e até o admito.

Por um outro lado, o jurídico, também aprendi o que significa LÍCITO. Isto é o que está de acordo com a moral e os bons costumes, a Lei e a Ordem Pública. Lícito é o moral, o legal e o constitucional, em breves linhas. Ilícito é o imoral, o ilegal e o que fere a Ordem Pública. Admito que hoje em dia o conceito de “moral e bons costumes” foi bastante escangalhado, mas ainda podemos identificar claramente o que é o delito, a violação da Lei, seja civil (o dano, material ou moral) ou penal (o crime e a contravenção). A pessoa ou instituição que viola a Ordem Pública é muito mais que um criminoso, nessa escala: é o Inimigo Público, o agente que torpedeia as bases do Estado e da organização social.

Ora, o que estamos vendo, no mundo inteiro, por certo se afastou MUITO da Lógica Científica e do Lícito! Qualquer cidadão de bem, que tenha um mínimo de bom senso percebe isso.

Hoje em dia, muita gente colocou a ideologia acima da verdade; o “politicamente correto” acima do correto; simplesmente despreza o que é lícito e até o ridiculariza – e o fazem em prol de ideologias. Agora estão partindo para o tudo ou nada, para o desespero, puro e simples.

É inegável, óbvio e evidente, para qualquer espectro social e político atual, que estamos à beira de uma ruptura, de uma grande crise.

A respeito disso, dessa crise, uma amiga, nas redes sociais, comentou que houve um historiador que previu este estado de crise do qual estamos nos aproximando. Ela estava falando de dois historiadores, na verdade: Neil Howe e William Strauss. Efetivamente, segundo o que eles propuseram, podemos concluir que estamos em uma crise moral, dos bons costumes, da Lei e que está afetando seriamente a Ordem Pública.

Neil Howe e William Strauss desenvolveram uma interessante teoria, chamada de Quarta Curva. Essa teoria foi aclamada por alguns e bastante refutada por outros. Muitos a acusam de ser “esotérica”, “sem confirmação”, enquanto outros a consideram original, criativa e até brilhante. Eu, vejo lógica nela.

Segundo Howe-Strauss, há 4 gerações “típicas”, que eles chamam “arquétipos” ou “arquetípicas”. Um “arquétipo” é um modelo, um paradigma, que funciona como essência e princípio explicativo para todos as coisas da realidade material e, no caso, social. Cada uma dessas gerações duram de 20 a 25 anos, e um ciclo completo se repete a cada mais ou menos 80 ou 100 anos. As gerações são as seguintes:

  1. Alta, aquela que ocorre logo após uma Crise. Durante essa época de Altaas instituições são fortes e o individualismo é fraco – há coletivismo, ou seja, a sociedade tem uma forte certeza de onde quer chegar coletivamente (embora aqueles que estiverem fora do centro majoritário muitas vezes se sintam sufocados pela “obrigatória” conformidade). A última Alta teria ocorrido entre 1947 a 1971, aproximadamente.
  2. Despertar. É uma época em que as instituições são atacadas em nome da autonomia pessoal e espiritual. Justamente quando a sociedade está atingindo o ápice do progresso público, as pessoas repentinamente se cansam da disciplina social e desejam recuperar um senso de “autoconsciência”, “espiritualidade” e “autenticidade pessoal”. Jovens ativistas do Despertar, em geral, olham para o Alta anterior como uma era de pobreza cultural e espiritual. A época do último Despertar se deu mais ou menos entre 1972 e 1997.
  3. Desvendamento. O clima desta fase é, em muitos aspectos, o oposto de uma Alta: as instituições são fracas e as pessoas desconfiam delas, o individualismo se estabelece, é forte e florescente. Enquanto as gerações Altas vêm depois das Crises, quando a sociedade quer se aglutinar, construir, evitar a morte de paradigmas e a destruição da crise anterior, na fase de Desvendamento, a sociedade quer dividir, individualizar e, principalmente, desfrutar. Pode-se apontar que estamos no fim de uma dessas fases, que durou de 1998 até o começo de 2020, mais ou menos.
  4. Crise. Esta é uma geração de destruição, que pode até envolver (e geralmente envolve) uma guerra ou revolução, na qual a vida institucional e os paradigmas são destruídos e reconstruídos em resposta a uma ameaça percebida à sobrevivência das pessoas e das nações. Após a Crise, a autoridade cívica revive, a expressão cultural é redirecionada para o propósito da comunidade e as pessoas começam a se localizar como membros de um grupo maior. A anterior teria ocorrido entre 1929 até 1946, mais ou menos, e estamos teoricamente na beira de uma dessas fases, que começa, segundo Howe e Strauss, agora em 2020 ou 2021.

Cada uma dessas gerações está ligada aos arquétipos, que Howe-Strauss descrevem como quatro, também:

  1. Idealista: a geração que está na infância durante uma Alta, uma época de vida comunitária rejuvenescida e consenso em torno de uma nova ordem social. Os idealistas, ou profetas, crescem como crianças favorecidas e bastante livres dessa era pós-crise, amadurecem como jovens lutadores (mas egoístas) durante um Despertar, focam na moral e nos princípios conservadores na meia-idade, durante um Desvendamento e surgem como anciãos guiando a sociedade quanto ocorre outra Crise. As últimas dessas gerações de idealistas foram os Baby-Boomers, nascidos entre 1946 a 1964, e os da Geração Alpha, e também é a geração de agora, dos nascidos depois de 2016.
  2. Reativa: é a geração que está na infância durante um Despertar, uma época de ideais sociais e agendas espirituais, quando os jovens adultos estão atacando apaixonadamente a ordem institucional estabelecida anteriormente. Os reativos, ou nômades, crescem como crianças desprotegidas durante este Despertar, amadurecem como jovens adultos individualistas pós-Despertar, tornam-se líderes pragmáticos de meia-idade durante uma Crise e envelhecem em idosos resilientes pós-Crise. A última dessas gerações é a qual pertenço, a Geração X, os nascidos entre 1965 e 1980.
  3. Heróis: é a geração que está na infância durante um Desvendamento, uma época de pragmatismo individual, autoconfiança e “laissez-faire”. Os heróis, ou cívicos, crescem como crianças pós-Despertar sempre de forma bastante protegida, amadurecem como jovens otimistas orientados para trabalhos em equipe durante uma Crise, emergem como pessoas de meia-idade bastante enérgicos e excessivamente confiantes, e envelhecem como idosos politicamente poderosos, atacados por outro Despertar. A última dessas gerações foi a dos chamados Millenials, ou Geração Y, os nascidos entre 1981 a 1996.
  4. Adaptativos: é geração que está na infância durante uma Crise, uma época em que grandes perigos acabam por reduzir a complexidade social e política em favor do consenso público e de instituições mais sólidas e atuantes, bem como uma ética de sacrifício pessoal. Os adaptativos, ou artistas, crescem superprotegidos por adultos preocupados com a Crise, amadurecem como jovens adultos socializados e conformistas de um mundo pós-crise, surgem como líderes de meia-idade orientados para o processo durante um Despertar e envelhecem como idosos pensativos pós-Despertar. A última delas é a chamada Geração Z, os nascidos entre 1997 a 2015.

Em breve resumo, o que Howe-Strauss apontam é que as gerações oscilam de um individualismo até um coletivismo e depois ao individualismo novamente, e que as gerações se sucedem com uma contraposição, em maior ou menos grau, da sucedente em relação à sucedida. Isso, realmente, tem sido observado ao longo da História.

Para mim, parece claro que há um confronto entre duas gerações de crianças livres e desprotegidas (Baby-Boomers e Geração X) em face de duas outras, de crianças bastante protegidas (Millenials) ou superprotegidas (Geração Z). Também, duas gerações que prezam primordialmente a Liberdade e que construíram a definição de Democracia atual, pós-guerras mundiais, em face de duas outras que batem na tecla da Igualdade, mesmo que a custo da perda de Liberdade. Focando nas Gerações X e na Millenials, vamos analisar.

A Geração X é das crianças nas décadas de 1970 e 1980, uma época de mudanças nos valores sociais. Seus chegaram a ser chamados de “geração largada”, devido à supervisão adulta reduzida em comparação com as gerações anteriores. Isso foi resultado do aumento das taxas de divórcio e do aumento da participação materna na força de trabalho, antes da ampla disponibilidade de opções de creches fora de casa. Como adolescentes e jovens adultos nas décadas de 1980 e 1990, os “Xs” também foram apelidados de “Geração MTV” e até caracterizados como cínicos e insatisfeitos. Algumas das influências culturais na juventude da Geração X foram os gêneros musicais do grunge e do hip-hop, bem como os filmes independentes. Na meia-idade (fase atual), a pesquisa os descreve como ativos, felizes e que alcançam um equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O individualismo é um dos traços definidores da Geração X e se reflete em seu espírito empreendedor. Segundo Strauss e Howe, “eles já são a maior geração empreendedora da história dos EUA; seu conhecimento de alta tecnologia e resiliência de mercado ajudaram a América a prosperar na era da globalização”. Ao contrário dos Millenials, a Geração X foi a última geração, nos EUA, para a qual o ensino superior foi amplamente bem remunerado financeiramente. Aqui no Brasil, foi a geração que viu e vivenciou o Plano Real, bem como a Queda do Muro de Berlim e o desmoronar do socialismo.

Já os Millenials, ou também conhecidos como geração Y, os nascidos dos anos 1980 ao início dos anos 2000 como anos finais. A maioria dos Millennials são filhos de Baby-boomers e do início da Geração X, e os Millennials costumam ser os pais da Geração Alfa. Essa geração é geralmente marcada pelo elevado uso e familiaridade com a Internet, dispositivos móveis e mídias sociais, e é por isso que às vezes são chamados de “nativos digitais”. Não viram ou não tinham idade suficiente para entender o colapso do socialismo, o fim da URSS e, como dito, aqui no Brasil, a vida antes do Plano Real. Contudo, essa geração foi fortemente afetada pela Grande Recessão (a crise dos anos 2007/10), bem como a atual recessão da COVID-19, que tiveram e têm um grande impacto porque causam níveis historicamente altos de desemprego entre os jovens. Em geral, o crescimento econômico e o desemprego dos jovens estão negativamente correlacionados, o que significa que os trabalhadores jovens têm uma situação pior do que os mais velhos durante essas recessões. É a geração do “politicamente correto”, da “ideologia de gênero”. Aliás, ideologias têm, geralmente, um campo propício para se desenvolverem durante essa geração. Psicologicamente, se atribui aos Millenials os traços de confiança e tolerância, mas também um peculiar senso de reivindicação de direitos, mas sem deveres, e narcisismo. São pessoas protegidas, confiante, voltadas para a equipe e pressionadas. Um dado curioso: houve um estudo de 2015 da Microsoft, que descobriu que 77% dos entrevistados entre 18 e 24 anos disseram “sim” à afirmação: “Quando nada está ocupando minha atenção, a primeira coisa que faço é pegar meu telefone”.

Pelas descrições, percebe-se o choque entre individualismo preponderante (X) e um coletivismo de telecomunicações (Y), bem como entre realizadores, otimistas (X) e desalentados, narcisistas (Y). Ainda, enquanto um membro típico da geração X toma decisões por si, sozinhos, e representa uma geração com múltiplas inclinações e orientações, os Y dependem muito da “aprovação” do meio social em que estão inseridos (os amigos) e costumam ser mais “enfeixados” em torno de opiniões comuns – bem como de ideologias, como estamos vendo. O choque da Crise que se avizinha é, aparentemente, entre os “Nômades” (geração X) e os “Heróis” (Millenials), que está se materializando em um grande confronto entre um individualismo prático e científico, em face de ideologias oníricas e irrealizáveis, mas coletivistas, em teoria. Poderíamos até dizer entre Conservadores e Progressistas. E esse embate está só começando. O que resultar daí, e ninguém ainda sabe exatamente o quê daqui a mais ou menos 20 anos, será o legado da Geração Alpha.

Contudo, é possível também antever que, a se generalizar esse confronto no mundo e se estabelecer o período de Crise, ele provavelmente não será entre países, como foram a I e II Guerra. O conflito parece estar se dando entre pessoas, entre convicções e crenças individuais e de grupos, dentro de cada país. Supondo uma III Guerra Mundial, esta seria uma série de guerra civis, intestinas, dentro de cada país – se é que já não está acontecendo.

 

 

Fábio Talhari, para Vida Destra, 14/12/2020.

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