sábado, 16 de janeiro de 2021

A inútil Arena da Amazônia celebra nossa capacidade de empurrar o futuro com a barriga


 A Arena da Amazônia é um monumento à estúpida arte de confiar nosso futuro a políticos e ao Estado. Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta:

No dia 19 de março de 2010, uma década antes de a pandemia de Covid-19 tomar o mundo de assalto, o então governador do Amazonas, Eduardo Braga, lançou a pedra fundamental da Arena da Amazônia, em Manaus. Na ocasião, o vice-governador do estado, Omar Aziz, disse que o estádio tornaria o Amazonas um lugar atrativo para mundo e que a Copa do Mundo “contribuirá para o impacto positivo na economia e qualidade de vida da população ao criar mais de 6 mil novas possibilidades de trabalho”.

Papo de político. Platitudes. Jargão sem qualquer base na realidade. Palavra ao vento, recebidas, à época, com aplausos e gritinhos antecipados de “É campeão!”. Uma vez encerrada a cerimônia sob o sol inclemente, cada qual foi para casa sonhar com o futuro próspero e glorioso e fácil como só o lulismo era capaz de nos proporcionar.

Com um atraso de quase um ano (por causa das chuvas) e depois de consumir R$ 669,5 milhões (quase R$200 milhões acima do previsto), a Arena da Amazônia foi finalmente entregue. Às moscas. O elefante caucasiano com projeto do prestigiado escritório Gerkan, Marg and Partners não serve para nada, uma vez que no Amazonas não há futebol capaz de lotar o estádio.

A um custo mensal superior a 1 milhão, a Arena da Amazônia tem uma única função: aparecer nas páginas dos jornais de vez em quando para nos lembrar das consequências de nossas escolhas coletivas. Da nossa insistência no erro. Da nossa fé inexplicável nos governantes e na possibilidade de alcançarmos uma espécie de nirvana econômico-social à base da canetada bem-intencionada.

O estádio é um obelisco a celebrar nossa crença de que, qualquer que seja o problema, o governo dará um jeito.

Um problema para o futuro


É tentador, mas não gosto da saída fácil e preguiçosa de culpar as administrações do PT por tudo o que há de ruim no país de Bolsonaro – inclusive o próprio. Para mim, esse argumento só serve para provar que sempre haverá um culpado por nossas escolhas desastradas. E que, no fundo, a democracia nada mais é do que a demoníaca festa de escolha de um Bode Expiatório.


Mais produtivo é, talvez, pensar na responsabilidade que cada um de nós temos pela tragédia presente. Na responsabilidade individual e intransferível. E aqui não me refiro apenas à tragédia sanitária da pandemia de Covid-19. Penso na tragédia estética do anti-intelectualismo e do elitismo blasé; na tragédia social da polarização e da desconfiança generalizada; e até na tragédia futura, mas muito palpável, da desesperança, da decepção. Sabe esse incômodo que você sente ao abrir o noticiário? Esse mesmo.


O contraste entre a felicidade no lançamento da pedra fundamental da Arena da Amazônia e a raiva diante das informações de que faltou oxigênio envasado num hospital de Manaus é falso. Ele dá a impressão de estarmos vivendo dois períodos distintos, mas não é nada disso. Porque o que se vê hoje é resultado daquele entusiasmo nascido da soberba e de uma inexplicável supervalorização do presente à custa do futuro. Sentimos raiva porque fizemos uma aposta errada. Mais uma.


Para nossos governantes, sejam eles prefeitos, governadores ou o presidente (o atual, os anteriores e os próximos), a palavra “legado” não faz sentido algum. O futuro é problema do futuro. O horizonte de nossos políticos alcança, no máximo, até as próximas eleições. Há muitos teóricos (entre eles Scruton e Hoppe, para citar apenas dois que me vêm à cabeça) que apontam nisso o problema fundamental das democracias representativas. Há dias em que fica ainda mais difícil tentar refutar.


E o que mais me espanta é que, diante desse descompromisso dos nossos “líderes” para com as consequências históricas de seus atos, ainda há quem seja capaz de joar todas as fichas na eficiência do Estado. Como se o problema não fosse, hoje, a falta de oxigênio, e sim a falta de oxigênio com a marca O2BRAS ou o "certificado de competência do governo federal". Como se o problema não fosse o excesso de Estado, e sim a ausência dele.


Como se esse entroncamento de tragédias não fosse resultado de décadas e décadas acreditando macunaimicamente que o futuro há de chegar, farto e glorioso, se eu me deitar preguiçosamente numa rede e deixar que um mito qualquer faça tudo por mim.

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