sábado, 16 de janeiro de 2021

Narrativas: A Criação do Mal – Parte I

 


Outro dia eu olhava meu perfil no Twitter, quando me deparei com uma notícia que me deixou inquieto. A matéria, publicada no site de extrema-esquerda Folha de São Paulo, trazia o seguinte título: “Bisneta de Monteiro Lobato quer apagar o racismo de sua obra com novas edições”. Antes mesmo de ler a notícia, me questionei sobre o porquê uma descendente direta do escritor, famoso pelas histórias do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, iria querer destruir sua obra, ao invés de lutar pela sua preservação. Afinal, os livros de Monteiro Lobato são mais que simples contos infanto-juvenis, mas também são registros históricos e culturais do Brasil de um século atrás. Assim, a Folha nem se deu ao trabalho de tentar esconder do quê se tratava essa supressão de referências racistas. Na verdade, a questão girava em torno das narrativas que dominam o debate global progressista. 

Cléo Monteiro Lobato não tem a intenção de reescrever a História, até porque o que passou não se pode apagar. Ela quer mudar a narrativa, e isso ficou muito evidente quando ela disse ser “tudo para entrar em sintonia com as críticas de que o escritor paulista teria maculado a inocência das aventuras da boneca Emília ao incutir concepções preconceituosas e estereotipadas em seus livros”. Em outro trecho, Cléo disse querer “uma versão atualizada, cujo teor fosse compatível com os valores sociais contemporâneos”. Em outras palavras, com a agenda da esquerda. Mudar a narrativa conta outra história, mergulhada em ideologias, e não valores. A iniciativa da bisneta do criador de algumas das obras mais célebres da literatura brasileira tinha o mesmo objetivo daqueles que, em um passado não muito distante, queimaram livros, e de outros que na Europa e nos EUA se glorificam ao destruir monumentos públicos que, em uma decisão monocrática, consideram “racista”, ignorando qualquer outra importância no âmbito do contexto social, histórico e cultural. É essa criação de narrativas que sustenta o plano político dos progressistas no Brasil e no mundo.

No entanto, antes de dar continuidade, é preciso deixar bem claro o conceito legal de “racismo”. O termo possui uma definição que por si só seria objeto de um artigo científico inteiro, mas vem sendo sistematicamente utilizado de forma genérica e incorreta por toda a militância de esquerda, endossada pelos veículos de comunicação que insistem em empregá-la propositalmente da forma errada. Resumidamente, o direito brasileiro (Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989) criminaliza 17 condutas como impedir a entrada em estabelecimentos comerciais ou negar atendimento e ainda praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Guarde com atenção essas palavras. Será importante mais adiante.

Feita esta observação, permita-me, caro leitor, a outro questionamento: o que quis dizer Cléo Monteiro Lobato ao se referir a adaptar a obra do seu bisavô aos “valores sociais contemporâneos”? Caso você não saiba, “A Menina do Narizinho Arrebitado”, obra que a bisneta do escritor, inicialmente, deseja intervir, completa cem anos neste mês de dezembro. Então, qual era o contexto sócio-histórico brasileiro de 1920? Basicamente vivíamos o final da Primeira República (1889 – 1930), um período marcado por mudanças de costumes e pela formação do povo tal qual conhecemos. Nessa época ocorreu uma forte migração do campo para a cidade, fruto da industrialização. Outro problema era a alocação dos escravos recém-libertos e sem perspectiva no seu espaço social. 

Com o crescimento dos centros urbanos, cresceu junto a necessidade por moradia e trabalho. As pessoas se amontoavam em vilarejos e cortiços, e problemas começaram a aparecer: comportamentos, disciplina, ética nas relações interpessoais, rotina laboral, exploração do trabalho, doenças, carência de procedimentos e de infraestrutura sanitária, etc. Tudo isso obrigou o povo a se adaptar muito rapidamente (ou não). 

Cléo Monteiro Lobato deseja, assim, varrer para debaixo do tapete os problemas sociais que forjaram a evolução do conjunto do regramento social e das leis que reordenaram a sociedade da época de modo a trilhar o caminho que chega até agora. Por exemplo, a lei trabalhista. Ela regula a relação entre patrão e empregado. Essa legislação só existe hoje porque os problemas passados fizeram o legislador refletir para estabelecer de forma justa as obrigações e tutelar o direito de ambas as partes. Se obteve ou não sucesso nessa empreitada, é outra discussão. Resumindo: o que nossos antepassados viveram foi etapa essencial e necessária para alcançarmos o nível situacional atual, bem como aquilo que vivemos possui a mesma função em relação ao futuro desta mesma sociedade.

A intenção do intelectual, político, professor, advogado, artista, jornalista e outras classes influentes do progressismo – a própria burguesia que dizem combater – é alimentar a narrativa para manter a chama acesa dos bons e velhos antagonismos sociais, uma modinha criada naquele mesmo tempo, mas revivida atualmente dentro de alguns nichos. A narrativa criada por eles após anos afincos de aparelhamento do sistema e da estrutura do Brasil é direcionada para contar uma nova história e, tanto no caso da bisneta de Monteiro Lobato, quanto na destruição de monumentos públicos, para fomentar divisões. Assim, torna-se mais fácil a conquista de objetivos difusos e a perpetuação do poder, descontextualizando o passado para reescrever o presente. 

Continua…

 

Por Diogo Marques, para Vida Destra, 11/01/2021.
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