sábado, 6 de fevereiro de 2021

Crônica da Gisele – Meter o pé na porta

 


Gisele chegou, e mesmo de máscara ela estava exuberante.

Trajava uma minissaia branca; os cabelos que eram lisos, agora estavam cacheados; os olhos bem delineados, e um par de brincos meio exagerados e vermelhos completavam o visual.

Nos cumprimentamos tocando os punhos e sentamos no banco da praça Haroldo Daltro, em frente ao Centro Educacional Manchester.

-Meu você viu que o Oswaldo Eustáquio está paraplégico?                                                   Isso foi em decorrência da surra que o Moraes mandou dar nele.

-Calma aí Gisele, que história é essa?                                                                                O ministro não mandou surrar o jornalista. Isso não existe.

-É como se tivesse feito isso, meu. Prendeu e mandou para aquele presídio como se ele fosse um criminoso.

-Gisele, ele estava em prisão domiciliar e desobedeceu às restrições impostas pela justiça…

-Prisão ilegal e visivelmente vingativa, e com o mais alto grau de autocracia.                        O que foi, meu? Você agora vai querer defender esses caras? Brincou, né?

-Gi, eu nem defendo e nem acuso ninguém, de princípio; eu defendo ou acuso comportamentos certos ou errados, sejam de quem forem.

-Está errado, meu.                                                                                                            Essa turma de mal-intencionados não merece consideração, tudo o que eles fazem é de caso pensado, e sempre subordinado à ideologia nojenta deles. Você não percebe isso?

-Não se trata disso, Gisele; é que há a necessidade de um mínimo de razoabilidade.

-Caraca meu, a pandemia te fez mal, que razoabilidade que nada; a gente tem que combater esses caras com o mesmo tipo de armas que eles usam.

-Fazendo assim a gente se iguala a eles, Gisele.

-Que se dane, cara; o que importa é combater firme, e tem mais, essa corja não se utiliza dessa tal de razoabilidade. Sabia?

Ela nem percebeu que deixou escapar um “cara” substituindo o “meu”, um resquício da sua origem no Rio de Janeiro.

-E como você acha que nós devemos nos comportar quanto a isso, garota?

-Com firmeza, meu; com menos filosofia e com mais assertividade. Nada de ficar trocando tapinhas; a gente tem é que meter o pé na porta e pular logo na jugular; essa turma não age de forma civilizada, se a gente der espaço eles virão como uma horda de bárbaros, arrasando com tudo. Para esses calhordas não importa o que é certo ou o que é errado, eles só agem para atingir o que eles querem e acabou, essa súcia não está nem aí para ética e nem para o povo ou o país. Você já presenciou um presidente brasileiro ter uma oposição tão hostil e ferrenha como tem o nosso presidente atual?

-Oposição brutal mesmo, eu diria.

-Tudo o que o Bolsonaro faz, tudo, é motivo para contestação, esperneio e judicialização; e a parte podre da mídia, que não é pequena, martelando o tempo todo e formatando e entregando a cada leitor, ou ouvinte, ou telespectador, tudo já digerido e embrulhado com as cores deles, pronto para o consumo.

-Gisele, o Bolsonaro também não ajuda; ele é litigante.

-Meu, isso é o maior erro neste país; todo mundo dá mais valor a forma do que ao conteúdo.

-Como assim, Gi?

-Meu, o cara fechou as torneiras da grande corrupção arraigada dentro do governo, só isso já seria para esse sujeito virar um verdadeiro herói, mas não, esse fato dá menos audiência do que ele mandar enfiarem as latas de leite moça em determinado lugar.

-Gisele você há de convir que isso não é atitude adequada a um presidente.

-Bobagem, o que não era adequado era chegar ao Palácio do Planalto e fechar os olhos para toda a sujeira ou, pior, participar da sujeira e ainda incrementá-la como tantos fizeram antes. A gente precisa escolher direito o que quer, se a gente quer um presidente que age politicamente correto e segue os protocolos, mas continua roubando, ou um que aja com honestidade.

-Na verdade, Gisele, eu quero um honesto e que saiba transitar politicamente.

-Você só pode estar brincando. Aqui no Brasil? Achar um que seja honesto já é uma raridade. Meu amigo, acorde para a realidade; contos de fadas não existem, a não ser na ingenuidade infantil.

Gisele era dura as vezes, com o olhar penetrante adicionado às palavras o efeito era cortante, e era proposital.

É forte quando alguém da chamada terceira idade é acusado de ser ingênuo e infantil.

Tentei tomar para mim o controle da conversa: O relacionamento do nosso chefe do executivo com os demais poderes da república também não é dos melhores.

-É mesmo? Será que ele tinha que abraçar o Nhonho, por exemplo, e ficar dando audiência para esse Sr. Botafogo?

-Pois é, Gisele, esse relacionamento precisa ser institucional, não há necessidade de abraços e amizades.

-Errado de novo, meu; esse Nhonho estava lá só para atrapalhar, felizmente saiu, e nenhum relacionamento mais cordial, institucional ou não, iria demover esse cancro de suas ações malévolas.

A Gisele que conheci em um curso na USP Butantã, e que era companhia frequente de papos na lanchonete do prédio da ECA, era menos incisiva na época. Essa minha amiga carioca que me tratava por “meu”, incorporando o paulistês na fala, havia se transformado.

Tentei mudar o assunto.

-Você está mais contundente hoje Gisele, mas me diga, como está a Pity?

-Deixa a Pity pra lá, nem quero falar dela hoje, quero mais é deixar clara a minha ira contra essa corja que não pensa no meu país, não pensa em família, não pensa em religiosidade, não dá valor a vida e defende criminosos de todos os tipos.

-Espere aí Gisele, você fala em religiosidade, mas você mesma não é religiosa.

-Não importa meu, eu não tenho religião, mas não quero impedir que os outros tenham. Eu acho que têm que existir igrejas, templos, sinagogas, mesquitas, centros espíritas etc., e quem quiser entrar que entre, quem não quiser é só não encher o saco de quem vai, e pronto! O que eu quero, meu, é o meu país livre de patrulhamento. Quero meu país total e como ele é, com o povo do norte, nordeste, oeste, centro, sudeste, sul, sem faltar parte nenhuma; quero praia, floresta, cerrado, caatinga, pantanal; um país com suas regionalidades, diversidades, mas uma única pátria.

-Isso eu também quero, Gisele. Eu também quero meu país todo, com seus ricos, pobres, classe média e até os desvalidos, que precisamos trabalhar para que possam se movimentar nas camadas econômicas. Eu sonho em ver o país gerando riquezas e todos evoluindo. Dar condições para que moradores de rua, por exemplo, possam melhorar de vida, e não simplesmente pegar essa turma e esconder ou empurrar para fora das vistas das pessoas, em atitude higienista. Colocar pedras para impedir que eles durmam em determinado lugar, como fez o titica de galinha, desculpe, o prefeito de São Paulo, não elimina o problema humano, só resolve parcialmente o problema do espaço.

-O que eu não quero são esses que tentam implantar as ideias dos idiotas Marx, Gramsci e congêneres, em nosso país; coisa que só deu errado onde tentaram, gerando prejuízos de todo tipo, mas principalmente podando os direitos e liberdades individuais, com uma suposta e mentirosa igualdade e com os benefícios apenas aos detentores do poder. Esses eu combato!

Estou com você, foi a única coisa que consegui dizer.

-Tá, mas me deixa continuar. O que eu quero é que as pessoas honestas e que produzem sejam protegidas pelo Estado, e que os que cometem delitos sejam punidos com celeridade e com penas na proporção dos crimes cometidos, mas também que as prisões sejam controladas pelo Estado e não por grupos ou facções criminosas. O que eu sonho é que possamos pelo menos iniciar um processo de efetiva melhora na distribuição da renda no nosso país. Em tempo, alguém avise ao João Dória que isso não se consegue aumentando a carga tributária!

O que eu quero é que os heróis e heroínas do meu país sejam assim reconhecidos por boas ações ocorridas e não em função do sexo, ou da cor, ou do grupo político, ou por apareceram nas mídias sociais ou serem abraçados pela parte podre da mídia paga.

Eu quero que nosso Brasil acabe com essas duas castas poderosas que foram criadas nas últimas décadas: dos políticos, e dos funcionários públicos graduados; que vivem uma realidade desconectada do resto do Brasil.

Estamos nessa pandemia maldita, meu; quase todos sofreram e estão sofrendo efeitos econômicos danosos como nunca antes, menos essas duas castas. Políticos e funcionários públicos não contribuíram com cota alguma de sacrifício. Estão blindados e formam um Brasil diferente, que para os demais é inalcançável. Não pode isso, meu.

-Gisele não esqueça o que está passando o pessoal da saúde, sendo funcionários públicos ou não.

-Verdade.

-Então, Gisele, quanto a isso que você está falando, eu diria que…

-Meu, não fica bravo comigo, mas você vai me falar isso na próxima, porque tenho dentista agora, e vou nessa tá?

-Claro. A gente se vê na semana que vem.

Nos levantamos e estiquei o punho igual fizemos quando ela chegou, ela tocou meu punho e em seguida me surpreendeu…

-Que se dane, me dá um abraço.

Abraçou-me e se afastou de costas juntando as mãos e se curvando um pouco, como se ela fosse uma oriental, ou descendente; virou-se entrou no carro e se foi.

Interpretei o gesto como um pedido de desculpas por não ter dado oportunidade para que eu falasse.

Depois que minha amiga se foi, e como sempre acontecia, eu fiquei ruminando as palavras e pensamentos dela na tentativa de compreender melhor.

E eu também quero, e quero muito, que muita coisa mude para melhor em meu país, e acho que tem que ser agora!

 

 

Reginaldo, para Vida Destra, 05/02/2021.                                                                Sigam-me no Twitter! Vamos debater o assunto! @Reginaldoescri1

 

Crédito da Imagem: Luiz Augusto @LuizJacoby

Obs. Publicado originalmente no Vida Destra.


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