sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Impeachment de Trump: um filme cujo fim todo mundo já conhece.

 


São poucas as chances de que aconteça algo radicalmente fora do roteiro e isso tira toda a graça do julgamento político do ex-presidente. Vilma Gryzinski:

Qual a probabilidade de que dezessete senadores republicanos pulem do barco e votem contra Donald Trump no estranho julgamento de um presidente que não é mais presidente?

Todo mundo conhece a resposta: quase inexistente.

Isso diminui consideravelmente o interesse pelo grande teatro armado no Senado.

Mas, quando o roteiro é bom, mesmo quando assistimos um filme ou um documentário sobre fatos históricos de desenlace conhecido, continuamos grudados na tela.

O julgamento de Trump é menos sobre o que vai acontecer a ele – na falta de alguma reviravolta dramática – e mais sobre a desconstrução sistemática conduzida pelos escolhidos pelo Partido Democrata para apresentar o caso ao Senado.

E que desconstrução. Ao contrário do primeiro impeachment, que envolvia obscuros contatos feitos com a Ucrânia, na busca de provas que comprometessem Joe Biden, então o adversário justificadamente mais temido, os fatos agora em questão foram acompanhados ao vivo em todo o país.

Apesar dos exageros das montagens, que enfatizam os momentos mais violentos, ignorando a massa que apenas ficou circulando pelo Congresso invadido, os fatos são conhecidos: Trump fez um comício, incitou seus partidários a “lutar” e uma parte deles achou que isso significava entrar na marra no Senado e impedir a diplomação de Joe Biden.

Foi crime? Incitou uma insurreição violenta contra a ordem constituída? Queria obstruir a transição pacífica do poder?

Os fatos de 6 de janeiro podem ser interpretados por seres de inteligência atilada e afiada, também conhecidos como advogados, contra ou a favor de Trump. Ele planejava um auto-golpe ou apenas incentivou seus partidários a demonstrar opiniões “patrioticamente e pacificamente” enquanto o Senado votava, sendo impossível prever que a malta teria um acesso tão fácil ao Capitólio?

A primeira interpretação tem sido defendida de maneira brilhante pelos democrata. Os deputados Jamie Raskin e Joe Neguse – não por acaso, advogados – fizeram apresentações embasadas, sóbrias e ao mesmo tempo apaixonadas. Dá até um pouco de inveja do nível dos congressistas deles.

Só a reconstituição da invasão já valeu a pena, como nos bons documentários.


Outra manobra esperta foi colocar o ex-vice-presidente Mike Pence como vítima, o valente conservador que não cedeu a Trump na exigência de não reconhecer o resultado da eleição. Os mais radicais entre os invasores pediam a cabeça de Pence, o que talvez dê um friozinho na espinha de colegas senadores.


“Eles estavam falando em enforcar o vice-presidente dos Estados Unidos”, insistiu a deputada Stacey Plaskett. Ela apresentou os melhores momentos da reconstituição.


Em favor da defesa capenga de Trump, registre-se que foi convocada na última hora, depois que um escritório importante se recusou a assumir a causa e que os cinco advogados conduziam os trabalhos pediram demissão.


Os argumentos apresentados pelos dois tapa-buracos, Bruce Castor e David Schoen, foram confusos e mal articulados. Quando não cômicos, como quando as redes sociais pegaram fogo, discutindo por que Schoen, com um caso doloroso de boca seca, punha a mão na cabeça cada vez que tomava um gole d’água (possível explicação: como judeu ortodoxo, tem que rezar antes de beber e comer, e o nome de Deus só pode ser invocado com a cabeça coberta; como estava sem quipá…)


Trump poderia perder os direitos políticos e afundar no esquecimento, silenciado pelo Twitter e abandonado até por aliados como Mitch McConnell, o líder republicano no Senado que já se afastou do ex-presidente e agora está plantando que o voto no julgamento político é questão de consciência?


A impossibilidade de uma nova candidatura Trump tem várias vantagens para os republicanos mais centristas. Cassado, ele não fundaria um partido que iria comer votos dos ex-aliados.


Absolvido, como tudo indica que será, ele continuará a ter uma incrível capacidade de liderança sobre a maior parte do eleitorado conservador.


É esse eleitorado que continua maciçamente do seu lado, alimentando um fenômeno político que ainda não foi inteiramente desvendado.


Segundo uma pesquisa da CBS, 44% dos americanos são contra sua condenação no Senado. Os 56% a favor refletem e ultrapassam em poucos pontos a votação em Joe Biden, indicando que Trump perdeu apoio apenas marginalmente.


Entre os entrevistados republicanos, 46% disseram que é muito importante para o partido demonstrar lealdade a Trump e 27% consideram relativamente importante.


Como é da natureza orgânica dos políticos pensar sempre na própria eleição, os 44 senadores republicanos, do total de 50, que muito provavelmente vão votar contra a condenação têm bem claro o sentimento do eleitorado.


Da mesma forma, os democratas talvez estejam tão preocupados em demolir Donald Trump quanto em criar obstáculos para os adversários republicanos.


Só para lembrar: os dois partidos têm exatamente 50 senadores cada e os democratas só prevalecem porque o voto de desempate é da vice-presidente Kamala Harris. A maioria na Câmara é apenas um pouco menos apertada (222 a 211).


O segundo julgamento político de Donald Trump pode ter um fim previsível, mas o jogo político não acaba nunca.

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