sexta-feira, 5 de março de 2021

Pandemia e Hipocrisia

 


No último ano, todos nós assistimos, entre perplexos e indignados, à sucessão de quarentenas, lockdowns e medidas restritivas, todas adotadas sob o pretexto de se diminuir a velocidade do contágio das pessoas pelo Coronavírus. O motivo é óbvio: nosso sistema hospitalar não é capaz de atender à demanda por atendimento e internações, principalmente àqueles que precisem de cuidados intensivos. Era necessário diminuir o contágio das pessoas para que se tivesse tempo de preparar os hospitais para o aumento da procura por atendimento médico.

Ao analisar os fatos, várias situações saltam aos olhos, de tão gritantes que são. A primeira delas é a evidente falência do sistema público de saúde, que não é um fenômeno recente, mas que vem se arrastando há décadas, acumulando problemas sem que sejam solucionados, criando uma verdadeira bola de neve que culminou na situação atual. As quarentenas, que tinham o objetivo de dar ao governo o tempo necessário para a adoção de medidas emergenciais de preparação do sistema hospitalar, resultaram em nada! Em muitos aspectos, os hospitais hoje se encontram piores que há um ano.

E sabemos que a falta de soluções na área da saúde pública não ocorre por falta de dinheiro. A Constituição Federal garante que um percentual fixo do orçamento da União seja destinado à Saúde. E além dos recursos garantidos pela constituição, houve vultosos repasses do governo federal aos estados, para medidas de combate à pandemia. O sistema público de saúde está enfrentando o caos atual por pura falta de interesse político em resolver os problemas sanitários que afligem o povo. Sim, afligem apenas o povo, porque os políticos, os ministros do STF e a elite, quando necessitam de cuidados médicos, recorrem a hospitais de referência, como o Hospital Sírio-Libanês ou o Hospital Israelita Albert Einstein.

Outra situação que salta aos olhos, e que mais tem enfurecido as pessoas (e me incluo entre elas), é o fato de haver um descarado duplo padrão no gerenciamento da pandemia. Basta analisar as medidas restritivas que são impostas (não são recomendadas, são impostas) sobre a sociedade, e como as pessoas são afetadas por elas. Uma coisa é a teoria, onde os hipócritas pedem que todos “fiquem em casa“, porque assim determina a “ciência”, e desta forma salvaremos vidas. Outra coisa totalmente diferente é a vida real, onde na prática as pessoas precisam se preocupar com o próprio sustento e dos seus.

O duplo padrão é claro quando vemos pessoas adeptas das medidas restritivas aproveitando a pandemia para viajar, como se quarentena fosse sinônimo de férias. Não era pra ficar em casa? Aliás, muitos dos defensores da quarentena não teriam sobrevivido este tempo todo sem os entregadores, que levam até a porta de suas casas tudo aquilo de que necessitam.

E aqui eu pergunto: o que seria dessas pessoas se fosse implementado um lockdown de verdade, no qual TODOS seriam obrigados a ficar em casa? Como se virariam sem suas diaristas, porteiros, entregadores? A quem recorreriam quando a internet desse pau?

Se fosse adotado um lockdown de verdade, que considerasse como essenciais apenas os serviços de fornecimento de energia, água e gás, a telefonia, a segurança pública e os serviços de saúde, como essas pessoas se comportariam? Seriam tão favoráveis assim? Conseguiriam sobreviver sem NetflixYouTube ou Ifood?

No momento, o que vemos são medidas restritivas que oprimem apenas a parte mais vulnerável da nossa população. E antes que algum hipócrita desavisado venha com aquele discurso batido dizendo que temos que salvar vidas, como se eu não me importasse com as vidas das pessoas, já deixo claro que me importo com as vidas sim! E justamente por me importar, acredito que temos que usar TODOS os meios disponíveis para tratar as pessoas e evitar que morram nas dependências caóticas dos nossos hospitais.

Temos aqueles que de fato querem salvar vidas e usam de todos os meios para fazê-lo, e temos aqueles que enxergam apenas números, e veem esta pandemia como uma oportunidade de ouro para ganhos pessoais e a consolidação de projetos políticos. Para esses, o povo é apenas um meio para se obter vantagens.

Nossa democracia naufragou (se é que chegamos realmente a tê-la), nossa classe política só enxerga o próprio umbigo; a mídia se comporta como uma prostituta, servindo a quem pagar mais; a classe artística e intelectual é formada na sua maioria por acéfalos que nada de bom têm a acrescentar à nossa sociedade. E nós, o povo, seguimos deixados à própria sorte.

O que mais me espanta é que tudo isso que relatei não é novidade para ninguém. Todos sabem disso. Mas mesmo cientes de todo este absurdo, ninguém reage à altura. O povo parece ter se resignado, agindo como se estivesse anestesiado. A cada dia as medidas autoritárias são adotadas num nível mais rígido, governantes já avançaram sobre direitos fundamentais garantidos em cláusula pétrea da Constituição, mas nossa Carta já não garante nada! Ou melhor, não garante nada ao povo, garante apenas aos membros do establishment.

É triste constatar que nosso país, tão sofrido, vem sendo sistematicamente destruído, e nosso povo, conduzido pelos poderosos a seu bel prazer. Isto tem que acabar. Precisa acabar. Antes que acabem de vez com o Brasil!

 

 

Sander Souza (ConexãoJapão), para Vida Destra, 05/03/2021.
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