quarta-feira, 26 de maio de 2021

Laboratório chinês volta a ser cogitado como origem do coronavírus


Documento do serviço secreto americano relata que três pesquisadores de Wuhan foram hospitalizados antes da eclosão da pandemia. Vilma Gryzinski:

“Ele poderia ter saído do meu laboratório?”. Com estas poucas palavras, a pesquisadora Shi Zhengli revelou sua preocupação quando foi informada da natureza do novo vírus que havia sido detectado em Wuhan, onde fica o Instituto de Virologia onde ela trabalha.


Motivo da pergunta: o vírus era da mesma família do encontrado em morcegos típicos de cavernas do sul da China, zona de clima tropical a mais de mil quilômetros de Wuhan.


Como teria ido acabar infectando humanos em Wuhan? A doutora Shi, conhecida como mulher morcego por causa das expedições nessas cavernas, passou desde então muito tempo procurando comprovar que seu laboratório, o único de nível de segurança 4 na China, não tinha deixado escapar acidentalmente o vírus que tanto estrago, em termos de vidas e perdas materiais, tem causado pelo mundo.


Tal como tantos outros aspectos dessa epidemia, a questão da origem do SARS-CoV-2 foi politizada. Como Donald Trump procurava empurrar a culpa da doença para a China, seus partidários abraçaram a causa da origem “fabricada” do vírus e seus adversários tornaram-se ardorosos defensores da hipótese contrária.


A politização contaminou a ciência, como não é incomum. E a resposta da ciência é, até agora, insatisfatória para os que buscam 100% de certeza: não dá para cravar uma resposta taxativa, embora a maioria dos estudiosos se incline pela origem zoonótica – morcego, animal selvagem intermediário, humano – da Covid-19.


Mas existem outros métodos de investigação e foi um desses, revelado pelo Wall Street Journal, que pesou no desconforto em meios científicos sobre o que parece ser uma dúvida crescente sobre a origem do vírus.


Um documento “de inteligência” visto pelo confiabilíssimo jornal relata que três pesquisadores do laboratório de Wuhan ficaram doentes em novembro de 2019 a ponto de terem procurado internação hospitalar. Um relatório anterior do Departamento de Estado já falava em pesquisadores precocemente infectados que apresentavam “sintomas compatíveis tanto com a Covid-19 quanto com doenças sazonais comuns”.


Segundo a linha do tempo apresentada pela China, o vírus foi identificado em 30 de dezembro de 2019.


Note-se que logo no início da pandemia, dois cientistas chineses também mencionaram a hipótese da origem acidental do vírus, relatando incidentes de pesquisadores contaminados com sangue e urina de morcegos que estudavam no Instituto de Virologia.


A derrota eleitoral de Trump tem feito bem para a melhor de todas as atitudes quando enfrentamos assuntos que causam grandes dúvidas: manter a mente aberta para todas as hipóteses.


Com Trump fora da Casa Branca, o New York Times destacou no começo do mês a carta de 18 cientistas, publicada na Science, dizendo que não há evidências suficiente para responder com certeza onde o vírus se originou. As duas hipóteses continuam a ser viáveis, alertam eles.


A carta foi coordenada por cientistas respeitáveis, Jesse Bloom, especialista em evolução de vírus do Centro Fred Hutchinson de Pesquisas de Câncer, e David Helman, microbiologista de Stanford.


“Qualquer pessoa que esteja fazendo declarações com um alto nível de certeza está ultrapassando o que é possível saber com as evidências disponíveis”, alertou Bloom.


É claro que ele não falou diretamente, mas muitos entenderam a recado implícito aos pesquisadores estrangeiros que fizeram parte da missão da Organização Mundial de Saúde em Wuhan, da qual retornaram dizendo que era “extremamente improvável” – as palavras do vocabulário científico para impossível – que o vírus tivesse se originado no laboratório de Wuhan.


O problema é que os convidados apenas visitaram as instalações, sem poder submetê-las ao crivo de uma investigação independente – nem era essa sua missão, pois jamais teria sido admitida. Todo mundo sabe que a China controlou milimetricamente a delegação antes, durante e depois da missão, protelando-a o quanto pode.


A carta dos cientistas na Science pede mais investigações, sem se comprometer com nenhuma das duas hipóteses, o que já é uma tomada de posição. Ontem, receberam uma espécie de apoio indireto de Anthony Fauci, o falante infectologista que virou o contraponto de Trump e continuou surfando a onda de popularidade: “Sou perfeitamente a favor de qualquer investigação que procure a origem do vírus”.


Outra carta, datada de março, também viu cientistas preocupados em descobrir a origem do vírus, empreendimento “de importância vital para administrar a atual pandemia e reduzir os riscos de futuras” ondas similares.


Este documento faz uma longa lista dos critérios que uma investigação rigorosa e independente deveriam seguir. Infelizmente, jamais serão seguidos na China.


“Continuo a achar que a etiologia mais provável desse patógeno veio de laboratório”, disse Redfield, considerando improvável que uma doença originada em morcegos tenha se tornado tão rapidamente “um dos vírus mais infecciosos que conhecemos na humanidade” pelo contágio entre humanos.


Redfield defende, assim, uma teoria mais turbinada: o patógeno que escapou do laboratório de Wuhan tinha sido manipulado para ser mais virulento, num processo chamado ganhou de função.


São poucos os cientistas que cravam essa hipótese. Entre eles está Luc Montagnier, o prêmio Nobel de 2008 por ter identificado o vírus da Aids. O virologista francês, que anda desacreditado e sem verbas por abraças teorias conspiratórias contra vacinas e outras ideias heterodoxas, acha que “aprendizes de feiticeiro” inseriram um pedaço do vírus da Aids num coronavírus comum, “provavelmente porque estavam buscando uma vacina”.


O caso mais conhecido de contaminação por acidente em laboratório é o de Marburgo, cidade alemã onde estavam sendo estudados macacos africanos contaminados por um vírus que causa estragos semelhantes ao do Ebola.


Originário de morcegos – os grandes portadores de vírus -, o vírus foi recolhido na África e classificado em Marburgo, de onde derivou seu nome. Trinta e um trabalhadores foram contaminados em laboratório, em Marburgo, Frankfurt e Belgrado; sete morreram. O caso tornou-se um clássico, inclusive inspirando obras de ficção do tipo humanidade ameaçada por vírus fabricado pelo homem.


A pesquisadora Shi Zhenling contou à Scientific American que, quando o novo coronavírus emergiu, ela repassou todos os registros dos vírus pesquisados ao longo de anos na sua caça aos morcegos para verificar se poderia ter havido algum vazamento, em especial no descarte do material contaminado. Ficou aliviada ao ver que nenhum deles batia com o novo patógeno.


Mas deixou uma pergunta no ar: por que sua primeira reação foi pensar que o novo vírus que àquela altura já se espalhava por Wuhan poderia ter saído de seu laboratório?

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