quarta-feira, 2 de junho de 2021

A VAIDADE


 Por Fábio Talhari -28 de dezembro de 2020

Vaidade é a excessiva valorização que se atribui à própria aparência, ou quaisquer outras qualidades físicas ou intelectuais, fundamentada no desejo de que tais qualidades sejam reconhecidas ou admiradas pelos outros, firmada sobre uma ilusão ou aparência ilusória.

Nem preciso me alongar que se trata de um pecado, na ótica cristã. Até porque quero dissecar o sentimento em si.

A vaidade tem três traços que a compõe, e são especialmente nefastos: a arrogância, o narcisismo e a megalomania.

Vamos ver primeiro a arrogância. É a qualidade ou caráter de quem, por suposta “superioridade” moral, social, intelectual, física, financeira ou de comportamento, assume atitude prepotente, de desprezo com relação aos outros. A arrogância, aliás, se torna especialmente abjeta por conta dessa última característica: a necessidade de desvalorizar os outros, ou especialmente, a quem ameaça ou pode ameaçar a vaidade ou a “superioridade” do vaidoso.

Segundo, o narcisismo, o amor pela própria imagem. Os vaidosos vivem em um mundo de fantasias excessivas de sucesso, poder, riqueza e beleza, o que as torna pretensiosos: se admiram e se avaliam de maneira excessiva. Contudo, isso esconde uma forte desconfiança e insegurança do vaidoso. Eles são dependentes, na verdade, do que os outros pensam deles. Ou seja, por um lado, querem demonstrar que não se importam com nenhuma opinião além da própria, mas ao mesmo tempo são obcecados pelo que os outros dizem sobre eles. Paradoxal.

Finalmente, a megalomania. A “mania de grandeza”, a supervalorização mórbida de si mesmo. É uma patologia psicológica. Os vaidosos lutam por ser relevantes socialmente, porque consideram-se capazes de fazer coisas “grandiosas” e de possuírem enormes riquezas. Entretanto, essas crenças são irracionais e superestimadas, na maior parte dos casos.

A tragédia acontece quando os vaidosos conseguem ser relevantes socialmente: artistas, jornalistas, políticos, magistrados, “intelectuais”, etc. Aí o quadro se torna realmente dantesco: o vaidoso procura impor sua vontade a todo custo, mesmo que a uma evidente prejuízo dos outros, que consegue causar de forma ampla. A falta de modéstia e humildade faz com que os vaidosos acreditem que detêm a verdade pelo simples fato de serem quem são. Pessoas vaidosas usam uma posição de poder ou autoridade sobre os outros para defender e impor seus pontos de vista. Com essa atitude desmesurada, infundada, muitas vezes contrariam as bases do que são ou do que deveriam fazer. Contrariam a lógica, a coesão social, o dever de profissão ou de cargo, a lei e a constituição. Aliás, estamos vendo isso de forma repetida…

Os vaidosos, contudo, precisam constantemente saber como são vistas ou qual opinião os outros têm sobre elas, e costumam ocultar essa necessidade, aparentando indiferença, mas é notável a importância que dão às redes sociais. Quando são contrariados, desmentidos ou desmascarados, não raro apelam para a violência, em palavras e atos, mental ou até física, para que não sejam “abalados”.

E isso porque vivem um “papel”, adicionam teatralidade, dramaticidade, a tudo o que fazem. Procuram “destacar” suas vidas cotidianas e se engrandecer, como se estivessem mesmo em um palco. Pura demagogia.

E ficam irritados quando não conseguem a projeção que querem, ou a aceitação de suas ideias, ou encontram empecilhos a suas pretensões. Fazem “tempestade em copos d’água”. Por exemplo, se acham que não estão prestando atenção suficiente neles, procuram qualquer desculpa ou motivo para discutir ou brigar, e não raro partem para as ofensas,  simplesmente, para tentar “ganhar no grito”.

De toda forma, os vaidosos tratam os demais ao seu redor como instrumentos,  como meios para alcançarem seus fins. Manipulam outras pessoas para utilizá-las como forma de obter mais poder. A firme crença de que se tem “autoridade” moral, intelectual, financeira, social, para poder então “pisar” nos outros é justamente a evidência de arrogância e falta de humildade, que são os aspectos mais nocivos dos vaidosos em situação de poder, como mencionei antes, e que causa tanto prejuízo a este país.

Mas tem ainda um detalhe realmente preocupante: raramente a vaidade vem sozinha, claro, mas associada a outros sentimentos prejudiciais, outros pecados.

Por exemplo, a associação entre vaidade e a ganância, ou avareza. O vaidoso considera-se “merecedor” de todas as riquezas, e não hesita em usar a instrumentalização dos demais para obtê-las. Vemos isso em muitos políticos, a até em alguns jornalistas e artistas.

A vaidade e a luxúria. O vaidoso gosta de “gozar a vida”, muitas vezes de forma desbragada, sem limites de qualquer espécie, sejam materiais ou morais, principalmente.

A vaidade e a soberba. Nessa associação, cada passo que o vaidoso dá é para “pisar” nos outros, para diminuir quem estiver em seu caminho.

E a mais nefasta, a vaidade e a ira. Nesse caso, não raro os vaidosos apelam para a violência como forma de atingir seus objetivos.

Até aqui, acho que muitos leitores tiveram “deja vu”, viram quem são essas pessoas…

Pois bem, queridos leitores: estamos imersos até os narizes em um mar de vaidades.

E isso acontece para todo lado, não somente no espectro político da esquerda. Acontece, e muito, nos que se dizem “defensores” das bandeiras da direita. Aliás, essa é a principal causa do esfacelamento da união que houve um dia em torno das pautas da direita, e que não estamos vendo mais.

As pautas, sabemos quais são: Deus, Pátria, Família, Liberdade, Livre Mercado, Armamento para a população. O grande problema é que cada um dos antigos defensores dessas bandeiras estão defendendo mais a si mesmos do que a elas.

E vou além: claro que para cada um deles e para cada um de nós, existe uma proposta de maior interesse. A mim, confesso, o Livre Mercado é meu maior ponto de luta. Mas não esqueço da importância que o civismo, a restauração da moral e dos bons costumes, a religião, os direitos de propriedade, de contratos, de auto-defesa são pautas alinhadas. Vejam que com essa “divisão de forças”, com essa “imposição” de uma bandeira sobre outra, acabamos na situação onde hoje nos encontramos: sem mais diálogos, sem mais “pontes”, sem comunicação!

Não sei quanto a vocês, leitores, mas estou realmente cansado dos “chiliques” dos vaidosos. Desde os desmandos ilegais e inconstitucionais de ministros da suprema corte, como dos “nobres parlamentares”, dos jornalistas e dos artistas, dos “youtubers”, dos (des)governadores e outros que tais, até a gritaria dos “traídos”, ou que se dizem “traídos”.

A falta de humildade (virtude caracterizada pela consciência das próprias limitações), de modéstia, de simplicidade, está tornando o Brasil realmente inviável. Até parece que ouço meu avô dizendo “quem não vive para servir, não serve para viver”.

Jornalistas que não informam, mas impõem os próprios pontos de vista, sem o mínimo pudor em distorcer os fatos, ou mesmo mentir.

Políticos que não contribuem em nada para o progresso do país, senão os próprios.

Magistrados que não aplicam a Lei, mas a “interpretam” segundo ideologias funestas, fracassadas ou irrealizáveis, ou segundo interesses próprios.

Não existem mais aqui “homens públicos”. Temos um amontoado de vaidosos, gananciosos e irados, buscando proveito próprio, buscando alimentar as próprias vaidades, em meio a um grupo de rancorosos derrotados, que procuram “vingança”, e uma maldita pandemia, que nos imobilizou e que tanto os rancorosos derrotados quanto os vaidosos de vários naipes estão procurando eternizar. E o pior: estão conseguindo a dispersão dos conservadores, da direita e daqueles que podem fazer algo pelo progresso deste país.

Ninguém vai concordar 100% com outro. Mas se a pauta de cada um for paralela à do próximo, se houver 60 ou 70% de pontos coincidentes, ou mesmo que não coincidentes, mas no mesmo sentido, e se daí acontecer que ombros fiquem alinhados, vamos conseguir sair deste buraco em que nos enfiaram. E para isso, precisamos muito de humildade, essa qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas, mas ter o sentimento exato do nosso bom senso ao nos avaliarmos em relação às outras pessoas – cultivar em nós mesmos cordialidade, respeito, simplicidade, modéstia e, acima de tudo, honestidade, conosco e com os outros!

Já deu disso tudo, amigos! Já deu de vaidades, tanto dos outros como nossas!

Temos que tomar uma bela e cavalar dose de humildade, todos, e nos “re-unir” em torno das pautas que interessam ao Brasil! Existem vários caminhos, e todos eles estão precisando ser enfeixados em torno da construção de uma nação – esse é o objetivo maior!

 

Fábio Talhari, para Vida Destra, 28/12/2020.

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